Editorial

Biodiversidade, saúde e políticas sociais
Alex Spyros Botsaris
Clínico Geral, Presidente do Instituto Brasileiro de Plantas Medicinais

Detentor de uma grande diversidade vegetal, o Brasil tem um enorme potencial para o desenvolvimento de novas drogas (sejam fitoterápicos ou moléculas isoladas) a partir de suas plantas medicinais. Os levantamentos mais recentes apontam para um universo de cinco a nove mil espécies medicinais em nossos diferentes biomas, das quais apenas uma minoria pouco expressiva foi estudada do ponto de vista científico.

Com o programa social anunciado pelo governo do presidente Lula, abre-se a possibilidade de novos caminhos também na área da saúde no que diz respeito à produção de medicamentos e à pesquisa científica. Ao longo de nossa história, temos sido totalmente dependentes da importação de drogas e tecnologia na área farmacêutica. Mas a atual conjuntura parece favorecer uma mudança de cenário.

Nossas universidades vêm realizando um enorme esforço de modernização nessa área. Centros de pesquisa estão montados e muitos mestres e doutores nos diversos segmentos envolvidos estão prontos para produzir medicamentos. Como resultado de toda capacidade científica construída, a produção de trabalhos envolvendo a pesquisa com plantas vem crescendo de forma exponencial nos últimos 20 anos. Limitados há algumas dezenas por ano no início da década de 80, nos último quatro anos cerca de cinco mil trabalhos foram publicados por pesquisadores brasileiros.

Mas ainda não é o bastante. É preciso organização e objetivos claros que norteiem os grupos de pesquisa, e ainda fiscalização do acesso às plantas, para defender nosso patrimônio e interromper o processo que vem permitindo que várias delas sejam pirateadas para fora do país, com patentes depositadas por pesquisadores estrangeiros. Os japoneses lideram o grupo, mas americanos e europeus também participaram dessa "orgia" ambiental. Infelizmente, algumas de nossas espécies de maior potencial, como a Fafia e a Espinheira Santa, já estão parcialmente perdidas com essas patentes. (Logo - e principalmente por isso - é preciso agir de forma enérgica).

Muitas plantas brasileiras já estão suficientemente pesquisadas e podem ter sua validação, que inclui segurança e eficácia, como medicamento fitoterápico, feita com pequeno investimento. Assim estariam prontas para uso, sobretudo, na rede pública - parte desse conhecimento é herança do Programa da CEME (Central de Medicamentos), decorrente dos estudos realizados durante a década de 80 e interrompidos nos anos 90.

Medicamentos a base de plantas têm sido usados em assistência primária à saúde com excelentes resultados, no Brasil e em vários países da Europa, como a Alemanha, e extensamente na Ásia. Entre nós, a experiência mais interessante é o Projeto Farmácias Vivas, idealizado e implantado pelo professor Francisco Matos, da faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Ceará. Iniciativa que tem atendido a muitas comunidades carentes daquele estado.

Isso demonstra como um programa nacional de plantas medicinais pode trazer frutos para o país, já que nossa indústria farmacêutica ainda não tem estrutura para o investimento necessário. Para se ter idéia dessa importância, basta analisar os levantamentos que apontam uma economia da ordem de até 70% do custo do tratamento, por paciente, quando utilizam-se os medicamentos fitoterápicos em substituição aos convencionais. Além dos avanços em saúde primária, um programa com esse perfil pode significar o desenvolvimento dos primeiros medicamentos brasileiros.

Levando-se em conta as plantas já validadas, temos medicamento para problemas de saúde como, gastrite (espinheira santa, alcaçuz), dor e reumatismo (erva baleeira, curcuma), bronquite (guaco, poejo), ansiedade e insônia (passiflora, melissa), dor de cabeça (gengibre, tanaceto) entre outros. Tratam-se de queixas comuns, responsáveis por mais de 50% das consultas na rede pública. Além da economia, adoção de programas de tratamentos com fitoterápicos possibilitaria a racionalização e otimização do orçamento da saúde, possibilitaria a democratização do tratamento medicamentoso e evitaria a falta de medicamentos básicos nas prateleiras.

Enfim, o Brasil possui todos os requisitos para estar à frente da grande revolução farmacêutica que há alguns anos vem se desenhando no cenário mundial - vide os investimentos dos grandes laboratórios na pesquisa de
drogas vegetais. Sem falar no estabelecimento de um novo modelo econômico para a prática da assistência farmacêutica nos serviços públicos de saúde, sobretudo para os países em desenvolvimento, tão carentes de recursos financeiros.

Resta-nos aguardar que os anunciados investimentos sociais alcancem tamanha proporção. E que as expectativas em relação à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, cuja história pessoal se confunde com as lutas em defesa da nossa biodiversidade, se confirmem em políticas eficientes para o avanço do país na área da saúde e na apropriação do seu incalculável "capital verde".

Produtos Fitoterápicos X Fiscalização sanitária



Instituto Brasileiro de Plantas Medicinais
- Todos os direitos reservados - ibpm@ibpm.org.br

R. General Urquisa, 128 - Leblon - CEP: 22431-040 - Rio de Janeiro - RJ - Tel/Fax: 2239-1550